Thursday, February 13, 2014

A CAPITAL DA EUROPA E PONTO


Com quarenta e cinco, não peço mais a deus saúde plena, mas que as doenças venham uma de cada vez. Dei um mau jeito nas costas e agora amarrar o cadarço é um sofrimento ímpar. Numa das postagens anteriores falava desta coisa de nunca pensar em que se pode ficar doente. Estou no limiar. Me preocupo mas nem tanto. Com todos os esforços e sacrifícios da nossa excursão nepalina, todos sobreviveram. Enrijecemos músculos e desenvolvemos a coragem, qualidade fundamental do ser humano. Em Berlin, ficamos mais com amigos do que visitamos a cidade. Via de regra foi assim nos lugares em que revíamos amigos. São escolhas. O dia que a gente resolveu sair pra caminhar pela metrópole, tava um frio do cacete e tínhamos pouco tempo, porque tínhamos que resgatar maura e laura do technisches museum. Mesmo assim, helena e eu visitamos os interessantíssimos e impactantes neue wache, com a pietá de kollwitz e o monumento dos livros queimados na bebelplatz. Tentei ainda dar um oi pro BB, mas a praça tava sendo reformada, assim como aparentemente uma boa parte da cidade. Com muito dinheiro, a alemoada continua arrumando a sua capital antes dividida. Esta coisa do muro é assunto tão intrigante que chega a desalojar o capítulo anterior da história deles que vem a ser o nazismo. Sim, existe muita coisa que lembra a guerra e o holocausto, mas a indústria do turismo se interessa bem mais pelo tal muro e seus restos ainda de pé. E tudo o que vem na carona desde a queda, o fim da ddr e a unificação. O assunto é doloroso, mas rende dividendos pra quem o explora. A alemanha é o país da discussão crítica. Os assuntos são abordados abertamente, seja pela imprensa ou pela população. O tema da vez, é claro, é a tal união européia. Suas consequências para a alemanha. O conceito de europa. Merkel parece não ter muita popularidade, mas não tem nada pra por no lugar. A arte também sofre, com redução de orçamento e leis que tentam proibir isto ou aquilo. Um medo generalizado de uma nova onda de moral conservadora cristã que elege o padrão e coíbe as exceções. Me animei com as perspectivas de intercâmbio com o berliner theatertreffen e conhecemos a família do meu amigo uwe. Foi uma aula de história in loco já que o apartamento dele ERA o muro, ou seja, a fachada era um dos vários muros que dividia berlin. Todo mundo tem a sua opinião, mas curiosamente se envergonham da própria história. Praticamente o resumo da história ocidental, Berlim seduz os que vivem na província. Ostermeier estreando uma Lilian Hellman, uma produção de Gorki no teatro homônimo, Karge a milhão no berliner ensemble, oh-my-goodness! Nem consigo conceber o que seria viver num lugar desses, ficaria com febre da mesma forma que a nossa amiga lucia quando enche a mala de enfeites de natal. E aí resolvi contar pros anfitriões como eu e a leila nos conhecemos e foi muito divertido. Uma sucessão de acasos que acabaram nos unindo, feito a novela britânica que as meninas assistiam no andar de baixo do duplex. Também cantamos, mas não achamos uma música em comum e nem deu tempo pra isso. Leider. Eles se surpreenderam que Berlim é tida como o umbigo da europa. Que o resto é periferia. Que Paris se foi com a morte dos existencialistas e que Londres já não era nada há muito tempo. São cidades importantes, são, com diretores e dramaturgos referência como Brook, Mnouchkine e Donellan. Mas como comparar com Berlim, com sua irreverência, agitação e furor? Berlin está para a europa assim como Nova Iorque está para os estados unidos. Cosmopolita e varietada. Largas avenidas, grandes distâncias e muita, mas muita coisa pra se ver. E a gente cantarolando Berlim, Bonfim pelas calles, na esperança de dar de cara com a Nina.

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