Thursday, February 13, 2014

A CAPITAL DA EUROPA E PONTO


Com quarenta e cinco, não peço mais a deus saúde plena, mas que as doenças venham uma de cada vez. Dei um mau jeito nas costas e agora amarrar o cadarço é um sofrimento ímpar. Numa das postagens anteriores falava desta coisa de nunca pensar em que se pode ficar doente. Estou no limiar. Me preocupo mas nem tanto. Com todos os esforços e sacrifícios da nossa excursão nepalina, todos sobreviveram. Enrijecemos músculos e desenvolvemos a coragem, qualidade fundamental do ser humano. Em Berlin, ficamos mais com amigos do que visitamos a cidade. Via de regra foi assim nos lugares em que revíamos amigos. São escolhas. O dia que a gente resolveu sair pra caminhar pela metrópole, tava um frio do cacete e tínhamos pouco tempo, porque tínhamos que resgatar maura e laura do technisches museum. Mesmo assim, helena e eu visitamos os interessantíssimos e impactantes neue wache, com a pietá de kollwitz e o monumento dos livros queimados na bebelplatz. Tentei ainda dar um oi pro BB, mas a praça tava sendo reformada, assim como aparentemente uma boa parte da cidade. Com muito dinheiro, a alemoada continua arrumando a sua capital antes dividida. Esta coisa do muro é assunto tão intrigante que chega a desalojar o capítulo anterior da história deles que vem a ser o nazismo. Sim, existe muita coisa que lembra a guerra e o holocausto, mas a indústria do turismo se interessa bem mais pelo tal muro e seus restos ainda de pé. E tudo o que vem na carona desde a queda, o fim da ddr e a unificação. O assunto é doloroso, mas rende dividendos pra quem o explora. A alemanha é o país da discussão crítica. Os assuntos são abordados abertamente, seja pela imprensa ou pela população. O tema da vez, é claro, é a tal união européia. Suas consequências para a alemanha. O conceito de europa. Merkel parece não ter muita popularidade, mas não tem nada pra por no lugar. A arte também sofre, com redução de orçamento e leis que tentam proibir isto ou aquilo. Um medo generalizado de uma nova onda de moral conservadora cristã que elege o padrão e coíbe as exceções. Me animei com as perspectivas de intercâmbio com o berliner theatertreffen e conhecemos a família do meu amigo uwe. Foi uma aula de história in loco já que o apartamento dele ERA o muro, ou seja, a fachada era um dos vários muros que dividia berlin. Todo mundo tem a sua opinião, mas curiosamente se envergonham da própria história. Praticamente o resumo da história ocidental, Berlim seduz os que vivem na província. Ostermeier estreando uma Lilian Hellman, uma produção de Gorki no teatro homônimo, Karge a milhão no berliner ensemble, oh-my-goodness! Nem consigo conceber o que seria viver num lugar desses, ficaria com febre da mesma forma que a nossa amiga lucia quando enche a mala de enfeites de natal. E aí resolvi contar pros anfitriões como eu e a leila nos conhecemos e foi muito divertido. Uma sucessão de acasos que acabaram nos unindo, feito a novela britânica que as meninas assistiam no andar de baixo do duplex. Também cantamos, mas não achamos uma música em comum e nem deu tempo pra isso. Leider. Eles se surpreenderam que Berlim é tida como o umbigo da europa. Que o resto é periferia. Que Paris se foi com a morte dos existencialistas e que Londres já não era nada há muito tempo. São cidades importantes, são, com diretores e dramaturgos referência como Brook, Mnouchkine e Donellan. Mas como comparar com Berlim, com sua irreverência, agitação e furor? Berlin está para a europa assim como Nova Iorque está para os estados unidos. Cosmopolita e varietada. Largas avenidas, grandes distâncias e muita, mas muita coisa pra se ver. E a gente cantarolando Berlim, Bonfim pelas calles, na esperança de dar de cara com a Nina.

BERLIM BORBULHA


E la nave va. Desta vez, com outros anfitriões de primeira, na que eu chamei de capital da europa, o que muito impressionou a Dóris. Angela e Berndt moram num simpático duplex em Berlim, do qual se enxerga, por exemplo, o Wannsee, em cujas margens Kleist tirou a sua vida. E esta ‘capital da europa’ está repleta de lugares assim, com a história borbulhando para fora da taça. Usei a expressão paradoxal – afinal continentes não possuem capitais – porque de fato, sendo a Alemanha a proa da união européia, e Berlim pós-muro o símbolo de um novo tempo que se iniciou na última década do século passado, quis que as gurias entendessem a importância de se estar aqui. Nosso anfitrião berlinense kindly nos levou para ver as efemérides que contam a cronologia tanto do lugar quanto da nação. Durante o passeio, Leila achou Berlim parecida com Brasília, e eu assinei embaixo, quando a gente desliza pelas avenidas majestosas, imaginando o exército comemorando a anexação da alsácia ou então os jogos olímpicos de mil novecentos e trinta e seis celebrando uma possível alemanha ariana. Berlim é a cidade do momento, pois nela é que são tomadas as importantes decisões políticas e econômicas do bloco. Na esteira vem o movimento cultural que só pelo número de teatros-chave no cenário já mostra o que acontece nos palcos berlinenses. Interessante que Berlim passa ao largo da tradição familiar, talvez por ser um destino muito pouco biedermeier e muito vermelho para os gostos do clã. Mas eu não imagino uma viagem generalística à Europa sem passar por aqui. Je tremble um pouco quando penso a quantidade de peças que eu poderia ter visto, mas tento compensar contando o quanto teria gasto também. Saber que tem um berliner ensemble e um deutsches theater a vinte minutos de s-bahn deprime. Oportunidades outras haverão. Aí entra o comentário da impagável Angela de que algumas coisas eu não deveria externar nestes escritos de viagem. Well, que Florianópolis é uma província cultural é fato, não estou inventando a roda. Que um artista precisa estar em contato com a arte em que está metido é indiscutível, e como fazer isso na província pseudo-lusitana-insular? É uma agonia lembrar que Berlim, Paris e Atenas sind schon vorbei. Foi apenas uma delikatessen daquelas que a gente fica se lembrando tempos depois de se prová-las. Não exijam de um intelectual que seus pensamentos se limitem a narrações cansativas do que se viu e do que se fez. Os insatisfeitos que migrem para outras paragens internéticas então. Fico com vontade de escrever muita coisa, mas o sono bate. Hoje ganhamos uma feijoada dos nossos anfitriões, o que deixou a dóris bem feliz, que vinha clamando pelo lamentável arroz com feijão. Saber receber é uma arte, espero que consigamos retribuir à altura se as visitas programadas realmente acontecerem.

 

O ACONCHEGO DAS CASAS DOS NOSSO AMIGOS


Estamos na última parte da viagem, aquela em que somos recebidos por amigos e parentes. Foi inteligente ter deixado este segmento pro fim, porque somos paparicados quando mais precisamos e também não nos importamos muito se deixamos de ver um museu x ou uma igreja y. Como tudo na vida, existem prós e contras, mas com os anfitriões que tivemos até agora, só podemos falar dos prós.

Em Bremen, visitamos um primo-irmão da minha mãe. Figura sui generis, casado com uma violinista, uma vida de aposentado perfeita, com saúde e um savoir-vivre invejável. Donos de um sobrado gracioso, não necessariamente falsamente fashion, como aquelas salas-de-estar com grossos livros de arte por cima do vidro que nunca foram (e nem serão) lidos, mas com estantes rústicas repletas de livros sobre viagens, culinária e arte. Os dois viajam quatro vezes por ano para diferentes destinos, mas sempre com bon gout. Seja uma estação de esqui austríaca pouco badalada, ou algum lugar pitoresco no sul da frança, eles sabem viver. Quando ela disse que faria sanduíches para o nosso farnel de viagem, chorei, porque é raro encontrar pessoas que praticam a bondade. Bondade é agir sem esperar recompensa. Também nos levaram para ver um pouco da cidade hanseática, e as três obviamente vibraram com a estátua dos musikanten. Uma cidade orgulhosa do seu passado comercial que se vê nos prédios magníficos da altstadt.

Em Kobenhavn nos esperava Elizabeth, colega de PhD em Boulder. Com direito a jantar de boas-vindas com amigos que se interessam por teatro e pelo brasil, começou uma estadia pra lá de gemütlich num apartamento espaçoso bem perto da bahnhof, do tivoli park e da glypothek. Da mesma forma que em Bremen, um dos highlights foi a escultura da pequena sereia. Outro momento ápice foi a ida de bicicleta até a sauna, instituição escandinava por excelência. Rodar por uma cidade feito kobenhavn, à noite, com uma leve neve se esfarelando no rosto, foi algo. Memorável. Tomei um bom akvavit, experimentamos pãos com milhares de sementes e a geléia de framboesa é de verdade. A quantidade de castelos na cidade também mostra o orgulho local, um quesito recorrente na europa, um continente que ameaça impor uma homogeneização cultural  em função da união econômica.  Ficar na casa de alguém também nos aproxima mais do mundo real, já que em viagem estamos num conto da carochinha. Tratamos muito de teatro e de arte, que é afinal, a minha vida.

As chegadas. Via de regra chegar num lugar é um stress previsto. Táxis são uma exorbitância, uma experiência bastou para percebermos isto. Então podíamos optar por dois horrores: carregar malas cidade a fora (Atenas) ou pegar transporte público e literalmente NÃO CABER dentro deles (Paris). Por isso enobreço mais uma vez ficar em conhecidos, porque eles nos buscam. Em Veneza, não sabíamos onde ficava o hotel. Em Kobenhavn, não conseguíamos conexão para se comunicar com nossa hospedeira. Em Paris não encontrávamos a porta do originalíssimo hotel-dieu. E assim vai. São as partes logísticas de uma viagem que consome um tempo do inferno e que precisam ser divididas de forma equânime para não sobrecarregar ninguém.

Essa é pra ti, Punda. Acabo de acrescentar mais um país na minha listinha. Dinamarca. Hehehe.

Por fim, assistimos o nosso primeiro espetáculo. Uma mistura de circo com ...well, circo. A partir de uma pintura de Dali, a companhia tentou extrair elementos para introduzir suas habilidades físicas e clownescas. Pras gurias foi interessante ver algo de impacto visual – luzes wilsonianas belíssimas, acrobatas talentosíssimos – mas pra quem aprecia um, teatro, dois, teatro dramático, e três, teatro bem feito, foi uma experiência enervante. Quem gosta de ver pantomimas romanas contemporâneas tá se lixando prum background narrativo. Quem aprecia a narrativa bem construída, se irrita com o recurso fácil e preguiçoso de usar quelque chose pra dar um ar mais cult pra coisa. Tenho minhas dúvidas sérias em relação ao interdisciplinar, quando ele acontece sem um propósito claro, sem um ponto a chegar. No pós-moderno, ele apenas ampara o mal-feito e o irresponsável, e aqui eu ecôo Greenberg e sua crítica ácida ao lixo estético da sua época. A falta de unidade e coerência era gritante. Usar um quadro grotesco para inspirar duetos sublimes em trapézios criava um paradoxo insuportável. O misch-masch do apagamento das fronteiras é um mero subterfúgio para introduzir uma nova categoria, daquilo que não tem nome. Mesmo assim, as coisas precisam de nomes. Ou temos um amarelo-alaranjado, ou um laranja-amarelado, mas ainda assim sabemos de que cores se trata. Um teatro-dança é uma forma teatral que se utiliza de coreografia e muito movimento corporal. É teatro. A dança-teatro é uma dança que se utiliza de elementos teatrais, ação, diálogo, mas que basicamente se trata de dança. O ser humano tem uma necessidade inata de compreender e organizar. Quem quiser enveredar por searas outras, que pague o preço. Saindo da ala contemporânea do museu nacional de copenhague, tive a certeza do beco sem saída em que se meteu tanta gente. Arte pra quem. Ou o público é muito burro, ou os artistas. Hoje, não se tem nem o apoio do público jovem. Vi uma gurizada passando reto por instalações conceituais, procurando algo que se parecesse o mínimo possível com o que faz parte do mundo deles, ou seja, écrans ou headphones. Reflexões obrigatórias.

Aqui na dinamarca cai desde ontem uma neve meio aquosa. Provavelmente ficaremos sem ver uma neve pesada nesta viagem. O que em muito ajuda pras longas passeadas pelas cidades, já que com muito frio ficaria insuportável, e depois que a helena demoliu minha bota pisando em cima dela em atenas, eu dependo dum tenisinho que até agora foi bem resistente.

Rumamos para o nosso último país do roteiro. Pra Alemanha. Onde nos sentimos mais em casa, e onde veremos pessoas que fizeram parte das nossas vidas em momentos importantes. E daí, daqui a uma semana, depois de mais paparicações recarregantes, estaremos desembarcando no Brasil. Ufa!

Friday, January 10, 2014

PARIS EM POUCAS LINHAS

Cruzando a Bélgica, um país pro qual eu nunca dou a devida atenção, tento fazer um grand resumé do que foi Paris. A cidade definitivamente não tem o charme de Veneza ou de Praga. A monumentalidade dos prédios revela a megalomania de um povo que forjou uma revolução burguesa e um pseudo-imperador europeu. Da mesma forma que Roma, são as ruelas transversais que encantam, os arrondissements mais escondidos, os que não estão no horizonte de expectativa dos turistas escrotos, que se amontoam nos bastantões feito a cafonérrima sacre-coeur ou a insuportável torre do eiffel. Caminhamos muito (inclusive dentro de museus) , tanto na rive gauche como na rive droite, expliquei pra elas a diferença entre um burguês gordo que compra na place vendome e um intelectual esquálido que furunga livros usados no quartier latin. Nos museus, vimos muita coisa. Não tinha como ser diferente numa cidade que tem a quantidade de (ótimos) museus como lvtecia. No Orsay, pegamos o prémier dimanche du mois, o que significa, liberado total. Como eu e a Helena somos os mais museeiros dos quatro, e preferimos a pintura à escultura (e depois de atenas, já estamos satisfeitos com esta arte), tentamos dar conta dos quadros. Claro que foi impossível e os impressionistas do quinto andar acabaram não ganhando a atenção merecida. É muita coisa. E muita gente. De qualidade. A brincadeira do grupo era que o legal seria escolher um tema, ou um pintor, ou uma escola e se dedicar a visitá-la exclusivamente nestes dias de graça. Imaginem! Tentei fazer algo parecido no gigantesco Louvre. Escolhi os tecidos amarelo-alaranjados de alguns quadros, mas precisava ficar atento ao resto. No Louvre ficamos cinco horas. Um desbunde. Ah, Ingres, Ingres, Ingres! E o que dizer das paisagens de Corot em pequenos formatos! O David menos conhecido até surpreendeu, mas junto com Delacroix e Géricault, não atraem. O pavilhão dos renascentistas italianos – com a exceção da insuportável Mona Lisa – agaradou em cheio. Ghirlandaio, Filippino Lippi, Fra Angelico, Bellini (sim, ele tava lá também e de maneira grandiosa como sempre) maravilhavam o público mais seleto. A populacha, inclusive um bom número de tupiniquins, procurava o chulé (e sabendo disso, o museu indica onde estão eles), liberando os tintorettos, os rossos fiorentinos e os ícones pros veros apreciadores. E por fim, traçamos o Pompidou, o único dos três que eu ainda não conhecia. O prédio não é tão medonho como Veríssimo descreve nas suas crônicas parisienses. A exposição é muito bem cuidada e inclusive com paradas interativas. Tentava dar conta do que aconteceu na arte ocidental de 1900 a 1960. O contemporâneo não deu tempo de ver. Privilegiamos uma exposição especial sobre o fetiche artístico dos objetos iniciado com os surrealistas. Mas Paris vai além de museus. Algumas fachadas importantes como o instituto do mundo árabe, a saint etienne du mont e a notre dame mereceram uma olhada. Sabores franceses também foram provados, como o paté au canard que fez a leila vibrar e as baguettes crocantes por fora e suaves por dentro que comprávamos daily para o pétit déjeuner no quarto. Comer nos lugares é muito caro, bem mais caro do que no resto da europa até então. Mas nós não quisemos pagar esta conta. Iogurtes de framboesa, queijos brie, vinho da cotes du rhone, e a gente ficava feliz dentro dos quartos apertados. Os metrôs parecem labirintos azulejados e não ajudam muito os turistas que enlouquecidos decidem viajar de trem pela europa...com malas! Era um sobe e desce fatigant, com poucas escadas rolantes. Bom exercício pros músculos. Numa dessas, a Helena ficou trancada na catraca com mala e tudo e tivemos que socorrê-la. Enfim, seis dias na cité-luz foi bastante pra se aproveitar, já que havia uma certa insatisfação no ar em relação ao tempo nos lugares. Agora, estamos num outro mundo, o flamengo-holandês. O sol tenta afastar as nuvens nestes países baixos europeus, e o motorista do trem anuncia as paradas num holandês gutural. Desta vez conseguimos driblar a estratégia de arrancar mais dinheiro dos estrangeiros que compram o eurail pegando trens alternativos. Dá um pouquinho mais de trabalho, ou seja, várias baldeações, mas assim conhecemos mais os lugares e gastamos um pouca de energia, ao invés de ficarmos flacidamente observando a paisagem do trem. Para chegar em Paris vamos pegar seis trens diferentes, estamos no quarto.Como diria Fitzgerald, esta viagem é uma festa.

Wednesday, January 8, 2014

O PODER DA RELIGIÃO NA ARTE EUROPÉIA


Helena e eu definimos seis funções primordiais para uma viagem bem-sucedida. Dependendo do número de viajantes elas podem ser acumuladas, o que acaba exaurindo aquele que muitas delas assume. Então, vejamos: o geográfico, aquele que guia o grupo e nunca se perde no espaço; o financeiro, aquele que controla o dinheiro tentando ser o mais econômico possível e cuidando para que não falte; o informativo, aquele que munido de um bom celular e acesso a internet tem sempre todas as informações de preços, horários, descontos e coisas imperdíveis para se fazer; o estruturante, que cuida das roupas, da saúde e dos documentos de todos; o comunicacional, aquele que domina línguas e pede a informação de forma verbal no contato humano; e por fim, o físico, aquele que tem um bom porte muscular para carregar aquilo que é o mais pesado (sempre tem). Claro que o ideal seria que as funções fossem todas divididas. Todas são importantes.

Não surpreende que Romeo Castellucci use um rosto renascentista de jesus num de seus espetáculos. A europa é obsessivamente cristã. Qualquer coisa que se visite, de prédios a museus, e que tenha o mínimo de arte para mostrar exige um conhecimento bíblico básico. Hoje visitamos a notre-dame, desta vez pra valer, e sem ser minimamente douto em religião católica faz a apreensão estética menos prazerosa. Imaginem então as mil e poucas cenas nos vitrais da sainte chapelle – a obra-prima do gótico em paris – e todas elas tratando de episódios do livro dos cristãos! O que vimos até agora de arte inspirada pela bíblia é incontável. (Helena massageia meu calcanhar, estamos acabados de tanto caminhar. Depois de reclamarem das visitas aos museus, propus uma caminhada, digamos, dinâmica, por Paris e agora os quatro gemem de dores nos pés.) Mas além desta tem a bela arte humanista da renascença, a arte clássica dos gregos e a iconoclastia dos modernistas que vimos hoje no pompidou. Fico feliz quando vou em algum lugar que ainda não conheço, em termos de países vou acabar só acrescentando um na minha lista pundiana. Encontrei dois quadros do ‘le douanier’, superb as always. Tinha uns picassos verdes interessantes, uns mirós e uns klees magníficos e uma organização de museu muito interessante, que deseuropeiza a visão da arte. Depois na livraria, muita frustração, por saber que voltaremos para uma província rosca e tústica. Sem museus exuberantes, sem livrarias de dar água na boca, sem sebos surpreendentes. Pagamos os preços pelas nossas opções, mas a vida sempre dá voltas, n’est ce pas?

SÃOS E SALVOS NA TERRA DE CEZANNE, PISSARRO, SEURAT E ROUSSEAU (MEUS MESTRES PESSOAIS)

Chegamos em Paris. Mas por que raios os caras se arrastam dum canto da europa pro outro? Por que somos uma família democrática e a democracia tem as suas agruras. Este sistema inventado pelos helênicos, dizem, faz com que uma dada comunidade tenha que aceitar as escolhas, mesmo que sejam contrárias às suas vontades. Para definir o roteiro desta espetacular winterreise, cada um dos membros da família escolheu quatro destinos, e assim foi se montando a viagem em cima disso. Viajar em família é algo muito curioso, porque os integrantes do grupo naturalmente não compartilham os mesmos desejos. Senão vejamos: um grupo de senhorinhas que vai para medjugorje, na bósnia, tem o mesmo propósito religioso de orações e penitências. Um outro grupo que faz um viagem cultural para o cambodja, obviamente está interessado em conhecer angkor wat e se interessa pela arte khmer. Uma família no entanto, viaja junta porque ...é uma família. E conciliar os interesses por vezes se torna difícil. Aí entra o furo da democracia que não satisfaz ninguém completamente. Explicada então a razão de estarmos realizando uma eurotrip – por vezes se parecendo mais com uma eurostrip – comemoremos uma viagem de praticamente três dias, entre ônibus, ferry e trem. Incrível a falta de amabilidade e disponibilidade dos italianos em ajudar. Respirei aliviado quando conseguimos sair da Itália, porque parecia que estávamos encarcerados naquele país. Milão, as usual, cumpriu seu papel tirano, só lembrar da sorellina em 1989 chorando no piso frio da estação enquanto que laura e mina estavam feito sardinhas estacionadas num lugar proibido a quarenta graus celsius. O quadro do horror! Mas quase por milagre, ou seja, sete minutos, embarcamos num trem que parecia algum daqueles da protásio mas que logo se converteu num do humaitá, de tão absurdamente cheio. Viajamos de pé (!) por umas duas horas, até que vagou uns lugares. Estou viajando com mulheres. Exclusivamente com mulheres. That means, o silêncio é algo inexistente. As pausas para comida e xixi são intermináveis, o que se conecta com o tema acima da democracia e dos desejos e blá-blá-blá. Nosso hotel em Paris é sui generis. Fica do lado, isso mesmo, do lado da catedral de notre dame. Ouvimos constantemente os sinos e os gritos surdos de quasimodo galgando as telhas entre as gárgulas. Fica dentro de um hospital. Pra lá de bizarro. Mas muito central e cômodo. Paris é caríssima. Sorte que encontramos um super e encontrei un vin barato, umas makrellen e baguettes sempre certeiras. A minha eterna impressão de Paris se confirmou: tudo é meio longe, os prédios são imensos e passa um certo ar de impessoalidade. Não se consegue fotos de ruelinhas como em praga, veneza ou florença. Tudo é monumental por demais. Levei-as hoje para ver os impressionistas e os pós no Orsay. Cezanne e Pissarro se confirmaram como os grandes mestres. Cezanne é o grande pai, o exemplo a ser seguido, o marginal persistente, o outsider inovador. Pissarro é o domínio da cor e da verticalidade com seus troncos sempre presentes conferindo equilíbrio. A distribuição das obras no museu é muito interessante. A exposição itinerante do nu masculino, no entanto, me pareceu meio suspeita. Basta ir à Grécia para ver que de homens pelados a arte está cheia. No entanto, o artista tem que saber se vender e assim o Orsay avança. Dos outros, Van Gogh é brilhante, uma pena que caiu no gosto da populacha. Renoir é um chato meloso, e Monet parece meio fluido demais. Manet e Degas merecem atenção, apesar de esteticamente não causarem o frisson de um Rousseau – com duas pinturas magníficas em lugares-chave do museu – ou de um Seurat.  Que sera sempre Seurat. No fundo, o que mais deprime é perceber a riqueza cultural destas cidades todas, enquanto que vivo numa província tosca e rústica. Oh, Etherege, já esqueci todo o meu texto. Mas ainda estamos em Paris. E ainda falta a rue de rivoli.

REFLEXÕES AZEDINHAS OU O DIA DA MINHA SORTE

Faltando meia hora pra chegar em Ancona (de novo?!), resolvo abrir o lépi pra continuar narrando a nossa viagem através do blog. Pra conhecer Atenas e a Grécia pagamos um certo preço em termos de stamina, mas que no final foi inestimável. Pelos cálculos, gastamos uns quatro dias pra ir e pra voltar. Num roteiro corajoso e megalômano, que já tinha perdido Moscou, ia me sentir muito derrotado tendo que tirar Atenas. Todos sabem que eu não faço o tipo caseiro-acomodado, Wörthersee não é o meu profile. (Mesmo tendo feito questão de conhecê-lo com a rainha da dinamarca e exultado com a expressão de horror dela quando do meu comentário sobre o estado decadente da tal instituição hoteleira local. Hahaha!) Por isso, acabo arcando com longos trajetos, mas que me permitem admirar crepúsculos e auroras sem igual, em pleno hiver europeu. Dizem que as temperaturas estão mais altas do que o normal, mas isso me soa como papo de europeu mediterrâneo que tem inveja do frio brutal das paragens mais ao norte, as que deixamos para a segunda moitié da viagem. Uma bruma espessa cobre o adriático neste momento. São os pequenos details do roteiro que cansam, e isso que temos todos os hotéis reservados do brasil! Mas a propaganda é sempre enganosa, sempre fica faltando algo de que não tínhamos sido informados. A acrobacia para poder driblá-las às vezes cansa, e assim, acabamos gastando um pouco mais para ter mais conforto e menos stress. O eurailpass, por exemplo, só cobre os tíquetes, mas não as reservas. E vai saber que trem que precisa de reserva? Os beamter italianos e gregos de forma geral são da pior laia. Grosseiros e mal-educados ao extremo. Uns dão a informação errada e depois quem sifu é o turista. Estamos no meio da indiada número um (a primeira foi Viena-Veneza fazendo uma desviada legal por Salzburg). Se olharem no mapa da europa vão ver que Atenas-Paris é algo impiedoso. Fica no ar um gostinho de Júlio Verne e os tais cento e oitenta dias e a experiência de ter andado de ferry. Agora entendemos porque Punda Marie pretende se asilar num cruzeiro. Em tempos veronis deve ser um supra-sumo, quando as atividades todas acontecem. Estes momentos de descanso recarregam as nossas baterias por um lado, mas também trazem os pensamentos maus, os do dia-a-dia, os da rotina cansativa e irritante do home. Ficar parado olhando para as ondas calmas do Adriático me transportam para os percalços do trabalho, de atividades sem sentido, de consensos cagalhões e de obstáculos instransponíveis. Un peu fatigant, mas logo logo voltaremos à pista de corrida. Prometi pras duas que em Ancona iremos num Mac. Vibraram. Devem estar cansadas de comidas outras. Dóris já disse que a primeira coisa que vai fazer quando voltar ao Brasil vai ser comer feijão. Uma viagem desta envergadura faz amadurecer os seus participantes. Colocam na balança o que importa e o que não importa. Fazem contas para o novo ano que se inicia. Comprei uma agenda grega. Precisava limpar carma. Assim, terei um ano bem internacional. Se a crença de que o dia do aniversário reflete o ano inteiro, então estarei numa grande giornatta benta. É muito bom estar longe do Brasil. Por várias razões. Minha tia Marise diz que eu nunca estarei satisfeito em nenhum lugar, ou mais ou menos isso. Há um pouco de verdade nisso. O tal equilíbrio defendido até por Zizek é uma busca interminável. O que para uns pode parecer uma inconstância, para outros é uma necessidade vital de aperfeiçoamento constante. Quando vemos a miséria alheia, percebemos o quanto conquistamos. O que era o recepcionista do hotel em atenas perambulando pelo prédio porque estava enfastiado! Ou os atendentes do restaurante do ferry, que precisam responder sempre às mesmas perguntas, que fazem o mesmo trajeto dia após dia? As gurias estão agitadas, o que sempre acontece antes de chegarmos a algum lugar ou antes de dormir, o que parece sintomático. A bruma tomou conta da paisagem e uma voz anuncia em várias línguas que estamos chegando no porto de Ancona. Pegaremos o trem pra Paris – incluindo aí algumas boas umzüege – às duas e meia da manhã. Força na peruca!

COMEMORANDO QUARENTA E CINCO NUM FERRY BEBENDO OUZO

Hoje é o meu aniversário. Uma das efemérides desta viagem é eu estar completando quarenta e cinco anos de idade, trinta anos após ter completado quinze aqui também. Para ajustar o complicado roteiro, o que implicava em conciliar as festas do final de ano com os horários de ferry pra grécia, cá estou me afastando de patras de volta ao cerne do continente europeu. Um aniversário simbólico, que começou com três presentes: o cocô de um cachorro quase nos meus pés, as botas que eu tinha deixado no hotel de propósito – flashback: helena pisa no meu calcanhar na frente do templo de zeus e estraga a bota que eu tinha comprado em praga – sendo trazidas de volta pelo dono do hotel, o senhor polikaló, e por fim, uma pisada numa poça imunda respingando na minha roupa. Nada disso abalou meu bom humor, o humor de um senhor que beira a meia-idade. E que fôlego a gente tem que ter para fazer esta viagem à lá japoneses de dezenove anos! Mas ela é fundamental pros currículos de vida e sabedoria das três ladies. Cumpro uma tradição familiar de apresentar o velho continente pras filhas. Quando a helena e a dóris fizerem a sua parte, daqui a uns trinta anos, quem sabe eu não venha junto, já que o papel interpretado por anim rellüm há trinta anos atrás ficou vago desta vez? Para culminar, uma mini-ceia no deque do férri: aceitunas griegas, anchovas, barrinhas de pistache ou de gergelim e um ouzo 12. 40%. Tomei três copos e estou muito alegrinho. Pra se ter uma idéia, estou no deque só de pulôver e nem faz frio. (Por isso não busquem coerência no texto de hoje, hic!) A Grécia é um paradise o tempo todo. Pés de laranjeira pela cidade inteira me fizeram lembrar da minha allerliebste madrinha, alguém que captaria este detalhe da mesma forma. O espírito nacional se assemelha ao brasileiro, no que tem de bom, e fiquemos no que tem de bom. Vida, disposição, rebeldia ao status quo e fluidez. Atenas é um lugar idyllisch em vários sentidos. Foi o lugar que ficamos mais tempo, e fizemos muito bem. Conhecemos bastante da cidade, nos divertimos com muita coisa e fica um gostinho de quero mais. Nesta altura da viagem, já tendo passado da metade, chegamos à conclusão que: viajar durante as festas de fim de ano sem ter com quem passá-las de verdade é meio dose, porque a gente fica sobrando. Viajar no inverno também complica por causa do frio e da quantidade de roupa que a gente tem que carregar. Assim, fica estabelecido que as próximas serão sempre na estação quente. A Grécia foi uma decisão valente, tipo aqueles caras que investem na bolsa com um grau alto de risco. Tivemos que nos deslocar prum canto extremo da europa, o que nos custou uma certa energia. Mas vir pra cá sem vir pra Grécia é um certo pecado. Atenas concilia uma city life exuberante com um bem-estar pra quem aqui permanece. Diferente de outros lugares que tem muita cultura, mas um mal-être constante, ou então nada pra se fazer mesmo sendo um lugar querido. Aqui no deque agora se juntam os que não têm dinheiro para comprar poltronas como as de trem ou então os carésimos camarotes para descendentes de monarquias. Casacos de tecido sintético, barba mal-feita, ovos duros sendo quebrados nas cadeiras de plástico. Não se importam com o vento que sopra da África. Talvez sejam asilados políticos ou então imigrantes em busca de um lugar ao sol neste mundo capitalista fodido e desigual. As gurias adoraram a experiência do ferry. Estão saltando por sobre as cadeiras, o compartimento tava meio vazio. Não se sente a claustrofobia e o apertume de um trem, um avião ou um ônibus. O balanço do barco parece o vai-e-vem dum berço, um pai ou uma mãe que nanam o seu bebê. Ficamos impressionados de como e quanto os gregos fumam. Com a homogeneização higiênica do comportamento e do pensamento pelos ianques, este gesto parece claramente uma repulsa às normas do chatíssimo politicamente correto. Fumam nos restaurantes, fumam nas praças, fumam aqui no deque. Leila e eu fomos obrigados a comprar um cigarro pra acompanhar a turma. E tem coisa melhor do que saborerar uma nicotina depois de se empanturrar de golosinas gregas? Querem saber tudo o que visitamos na capital da Ellada? Então vamos lá: a akropolis com o parthenon, e agora luna e tuna conhecem uma das sete maravilhas do mundo antigo (se bem que eu acho o templo antigo de atenas com as cariatides bem mais interessante), o areopagos onde são paulo pregou, a ágora, onde a dóris dava pulos por poder visitar o túmulo do pai dela (pasmem, ela é filha de hephaistos!), o museu da ágora com estatuária incrível e outras curiosidades como as plaquinhas que ostracizavam os moradores indesejados de atenas, a biblioteca de adriano, o arco de adriano, o monumento a lisícrates, o teatro de dionísio oh-my-good-ness, o herodes atticus, o museu arqueológico nacional com os imperdíveis menino sobre o cavalo, afrodite fugindo de pan e a máscara mortuária de agamemnon, a troca dos guardas no parlamento, uma flanada no kafeneion ao lado do zappion, o mercado central, as igrejinhas ortodoxas com os fascinantes mosaicos cegando a nossa visão além de andar pra cima e pra baixo, provando frappés e cafés gregos e pisando em infindáveis cocôs de cachorros (mesmo que a cidade tenha a fama de ter milhares de gatos soltos). Percebo que escrevi bastante desta vez. Que esta profusão se reflita nos escritos dramáticos e científicos também. Tô precisando. Pra carreira e pro bem-estar pessoal. Ehrlich, tá sendo um birthday sui generis. Embalado pelo motor do boat, deslizando pelas águas de poseidon e fazendo uma das melhores coisas que existem: viajar.

Tuesday, December 31, 2013

ATENAS, MEU BEM-QUERER

Depois de uma pausa de um ou dois dias tô de volta. A razão, Atenas. Minha mãe não gosta de Atenas. Diz que é suja e desorganizada. Mas alguém precisa dizer-lhe que é isto que faz da cidade um lugar interessante. Os gregos não falam, eles gritam. A gente se assusta, mas acaba se acostumando. As livrarias cheias, cartazes de espetáculos teatrais e shows grudados em tudo que é muro e a cidade fervilha. Em pleno domingo, a acrópole cheia de gregos, as praças com música e multidões. Ocupam os kafeneion e fumam sem parar. Aqui na Grécia não existe o policiamento chato contra não-fumantes. Ainda estamos no tempo em que ser livre era um ordem. Hoje se homogeiniza tudo, desde não poder fumar, até usarem todos os imbecilóides i-pods alienantes e social-afastadores. Aqui a gente ainda se sente em casa. Eu tô falando de gente, de carne e osso, e não pseudo-andróides mecanizados e massificados. O tempo tem ajudado muito também. Sol sem ser o calor horroroso do Brasil. Mais uma vez a chegada no hotel foi uma via crucis, sob uma chuva fina e através de junkies caídos numa rua escura. A economia grita o tempo inteiro e depois de um táxi exorbitante em Praga, o grupo optou pela versão mochileiros na Europa e subir morro já é fichinha. Depois disto, tudo foi alegria. Visitamos vários monumentos significativos da pólis e também as obras de arte nos museus. Hoje compramos Kurabie pra comer no ano-novo, apesar do vendedor dizer que é um docinho de natal. Lembro da minha prima Panagiota preparando seus dotes culinários açucarados, e um deles era o tal Kurabie. Também me lembrei dela ao ver um Hauwa (wie man das buchstabiert, nur der Teufel kann sagen) numa vitrine. Atenas é um luxo. Estamos bem no meio da viagem, na virada pra contagem regressiva e a impressão que dá é que estamos por aqui já faz um ano. A experiência é muito intensa, vale tanto quanto um curso universitário, tamanho o aprenidzado empírico e intelectual. Hoje colapsei e me perdi, mesmo sendo Atenas um momento deveras sussu do passeio. Não sabia mais pra que lado ficava o hotel, os ombros rachando e ardendo com o peso de uma mochila que é transportada diariamente. Deus sabe o quanto me esforço, sei que serei muito bem recompensado pela bondade humana. Hoje é noite de ano-novo. A voracidade impetuosa da juventus já passou. Conforto e tranquilidade nos são muito mais importantes. Uma boa comida, um lugar quentinho, isso basta. Dóris pergunta se só estar em Atenas no ano-novo já basta, e eu imediatamente respondo que sim. Sim, porque é um lugar em que me sinto em casa. Um lugar que eu consideraria viver, mesmo o idioma sendo algo entre a linear a e a linear b pra mim. Museu arqueológico. Imperdível. Uma aula de civilização helênica e as que vieram antes. Travar contato com todas as personagens das tragédias é inebriante prum teatronman. Desde o telegrama de Schliemann até o busto de Menandro, Atenas means theatre. Ah, e ainda tem o teatro de Dionísio, que privilégio poder estar aqui pela segunda vez nesta vida, e presenciar in loco o local em que nasce o teatro, quando, vejam bem, téspis se separa do coro e DIALOGA com ele. dialoga. palavras. texto. e o resto é une autre chose. e com isso, digo good-bye pra 2013. muito prazer profissional, saúde, geld (regiert die welt) e amor entre as pessoas.

Saturday, December 28, 2013

OS CORAJOSOS, OS MOLÓIDES E OS ROMÂNTICOS

Fico imaginando o que seria da humanidade se a internet simplesmente parasse de funcionar. Eu, um cara que não acessa nem o email e muito menos o facebook há dias, já me irrito com a lerdeza de um satélite que acho que nem deve existir e me arrancou cinco euros, imagina aqueles imbecilóides dependentes da rede e dos gadgets! Nossos amigos italianos me contaram que uma colega deles, professora universitária (o que no fundo não é mérito algum, pelo que se vê por aí, muito pelo contrário), foi convidada para jantar na casa deles, e ficou o tempo todo num desses ipods, jogando games! Isto é simplesmente abominável e inimaginável. Tudo bem, era solteira, não tinha ou não queria ou não conseguia nenhum compromisso afetivo ou de responsabilidade, e por isso era uma desgarrada da sociedade real. Achei que esta seria a hora de poder responder alguns e-mails que estavam a minha espera, mas terão que esperar mais. Olho pro lado e vejo as ondas agitadas do Adria. Estamos zarpando pra Grécia, uma aventura com um quê de surpreendente. Expliquei hoje pra helena que existem dois tipos de pessoas (o mundo binário é mais pedagógico): aquelas que arriscam e podem se dar muito mal, mas também podem triunfar, e aquelas molóides que se contentam com uma modorrenta casa de veraneio em algum lugar extremely boring, e que repetem ano após ano as mesmas rotinas de férias, de natal, de aniversário, somando obrigações insuportáveis ao invés de ousar e serem felizes. Assim, justifico pra ela os estresses de querer visitar a grécia. Hoje, acordamos as cinco e meia da manhã, cortando o sagrado sono de todos. Com medo de que o despertador do celular (olha os gadgets again) nos deixasse na mão mais uma vez. Aí, tínhamos que descer uma rua beeeem comprida até chegar na estação de trem, sem nunca ter feito isto, às seis da manhã, escuro e frio, enquanto que os nossos amigos dormiam confortavelmente. Voltamos ao tema das questões culturais, o que se faz por uma visita e o que não. Aí, enquanto os lixeiros varriam a cidade, leila sai atrás de uma máquina pra pegar dinheiro. Pegamos o trem e temos seis minutos, que com o atraso do trem (o que é usual na Itália), virou um minuto para fazer baldeação. Por sorte o outro tava atrasado também, mas acabamos correndo pruma plataforma que não era necessária. Em Ancona, cidade belíssima à beira do Adriático, com a mesma cor de ocre de Perugia, preciso descobrir como chegar da ferroviária ao porto. No porto, ficamos sem o número da reserva, porque o amigo de Perugia esqueceu de devolver o comprovante. Ligamos para ele, descobrimos que está num e-mail que ele mandou. Depois disso, só o balanço do mar. Estamos zarpando para a Grécia. Era uma idéia enlouquecedora, encontrar um ferry num dia e horário exatos que não comprometesse o tal natal familiar (carma?), e cruzar o continente de cabo a rabo, mas atenas significa muito pra mim e pra leila e a doris fazia muita questão de vir. Então vamos. Susana, nossa amiga espanhola casada com o amigo italiano acha que nós temos uma idéia muito romântica da europa. Na mosca! Na vida a gente tem que ter uma idéia romântica a respeito de tudo. Azar de quem se enrosca na agonia do real, nós sonhamos, e assim, chegamos lá. Faz parte da loucura. O romantismo de uma grécia já começa com os próprios românticos, byron e companhia. Ruínas imemoriais, palcos catatônicos, a moussaka, o ouzo, a língua que soa tão, mas tão bem, e a gana de revolta de um povo que jamais aceitou qualquer subordinação. Me causa muita curiosidade saber como estão por ora, com a economia devastada. Como não achar romântico um país que balouça ao sabor do vento, das areias e das águas de mares com nomes mágicos como egeu e jônico? Que fica num limiar de culturas e que bebe de todas elas? Que transmite à humanidade um legado estupendo em termos de arte? Que faz de mim a razão de ser o que eu sou? A Grécia jamais pode ficar de fora. E assim, a noite cai no mar adriático, o ferry verte de um lado pro outro, como um poseidon que nos acalenta e nos reafirma a importância do ousado, do extravagante e das conquistas que se tem quando se procede desta maneira.

PERUGIA: HISTÓRIA, NATAL E SEXISMO

Hotéis. Até agora. O único que mereceu um conceito ‘bom’ foi o de Viena. Este de agora é quase uma espelunca. A água solta umas felpinhas que parecem coliformes fecais. O chuveirinho se quebrou de tão velho. A tomada saltou pra fora da parede. A máquina de lavar roupa, o cano de descarga da água tava solto e de repente estávamos em meio a um mare nostrum. Um horror. Isto faz parte do capítulo melhor-não-dizer-nada-para-não-destruir-amizades. Foi um amigo que conseguiu este lugar pra nós, o que lhe causou muito stress. Para poupá-lo do stress familiar – já que nós passamos de nível neste game peculiar – deixamos assim mesmo. Sim, tivemos que pagar uma quantia relativamente significativa para ficar aqui. Estar com amigos é bom, mas adaptar-se a outras maneiras e costumes às vezes arde. Leila e eu ficamos estupefatos com certas faltas de hospitalidade que a nós parecem óbvias. A liberdade definitivamente não tem preço. Apesar das pequenas mazelas, quase insignificantes, participamos dum cardápio de natal enche-pandulho, mas no bom sentido. Claro que a nobreza se incomodou com os pratinhos de plástico, mas, a sequência merece registro. A clara divisão sexual de sociedades conservadoras se mantém por aqui: mulheres na cozinha, servem e lavam. Quase não sentam. Os homens conversam animadamente na mesa sendo servidos. Um pouco constrangedor para os da Aufklärung, mas pertence ainda ao capítulo das adaptações culturais. Então vejamos: a entrada era uma folha de alface com uma pasta de gorgonzola, uns prosciuttos cor de grapefruit enrolados e unas migas com creme de aspargos (que o pai do nosso amigo colhe no mato, um dos seus passatempos prediletos). After that, uma sopa de capeletti. A Helena que não gosta de capeletti, adorou. O brodo era qualquer coisa ambrosiana. Aí uma tríade de tatu com um talvez chutney de ervas, bolinhos de carne amarelados por fora e um legume intraduzível (os italianos adoram isso de que existe algo aqui que não se encontra em nenhum outro lugar) à parmegiana. Quando achávamos que tinha parado por aí, veio o pato com laranja e um refogado de acelgas. A sobremesa eram torrones italianos e um bolo napolitano com frutas cristalizadas e um creme de pasteleiro. Vinhos, grappas, licores, água e café. O famoso almoço de natal da mãe do marco. Pra completar o programa perugino, fomos hoje dar uma olhada na cidade. Por não ser uma coisa turística asquerosa do mainstream, é possível caminhar livremente pelas ruas e desfrutar das vistas de cima do centro storico. Sim, havia turistas, mas são aqueles que se interessam pelo estético e não pelo mercantil. Uma diferença que separa a unidade praticamente em dois. O pai do Marco nos guiou explicando as contribuições etruscas, bizantinas, medievais e renascentistas. Também falou da decadência da cidade por causa da igreja católica, e das alterações equivocadas do fascismo italiano. O borgo é lindíssimo porque mantém a estrutura do medievo italiano. Construída sob três colinas, o sobe e desce lembra as cidades mineiras, com telhados sobre telhados e ao fundo torres de igrejas. Marco queria nos mostrar os arredores de perugia, mas isso deixaremos para um futuro verão por aqui. No verão, a locomoção é mais fácil, o tempo ajuda e as malas ficam mais vazias. O segredo é conjugar as férias de todos. A Itália está mostrada. Foi muito intenso e segundo a Dóris, we really needed a rest. Ela encontra muita diversão nas coisas mais inusitadas como uma tábua solta no apartamento em que estamos, enquanto que outras, aparentemente mais interessantes, she does not care at all. Tento criar passeios que agradem a todos, mas às vezes fica difícil. Hoje choveu pela primeira vez. Tá relatively quente aqui em Perugia: doze graus. Eu meio congestionado desde que saímos do Brasil. É o inferno astral. Sempre ficava doente no natal e no ano novo quando era criança. Faz parte. Quando eu passar meu aniversário em Atenas, eu me curo. Ha!

ROMA, UM OUTRO OLHAR

Um dos natais mais originais de todos os tempos, senão o mais. Quando encontro minha irmãzinha tita berton, gostamos de fazer listas remembrativas. Onde passamos o natal é uma das nossas preferidas. O de 2013 então será especial: perambulamos por Roma quase inteira. Ficava olhando pras pessoas correndo para compromissos familiares e alimentares e pensava, uau, io sono libero. No more jornadas exaustivas numa cozinha para culminar numa dor nas costas lancinante e gotas de suor pelo corpo todo ao receber os convidados à noitinha. Não. Ao invés disso, o circo massimo, o teto da san carlo alle quattro fontane, as luzes de natal nas ruas de comércio. E sem ter que se preocupar com presentes para ninguém. Praticando a rebeldia anti-capitalista pregada por Zizek. Visitando Roma pela segunda vez, acho que fiquei com uma melhor impressão da cidade. Não tinha percebido as ruelas prateadas de sol assim que se afasta das vias principais. Ladeiras pitorescas com um casario se ainda pesado em comparação com Veneza e Florença, afinal a cidade carrega o peso de ter sempre sido uma ‘capital’, com o seu encanto. Mercadinhos expondo as laranjas da Sicília, butiques alternativas e lojas de artesanato. As várias camadas históricas se sobrepondo, não em forma vertical feito Tróia, mas horizontal, uma do lado da outra, é o que fascina. E desta vez, Roma pareceu caber quase dentro da palma da mão. O plano original de terminar o dia de véspera de natal no vaticano foi por água abaixo, porque ao chegarmos na piazza di spagna, ninguém mais aguentava e a concordância em abrir mão do vaticano foi geral, afinal de contas o grupo é 75% lutheran...então o adestrador de ursos católico está rodeado de luteranas! Hahaha. O inverno tem sido bondoso conosco. Temperaturas mild e até queimado na testa ontem fiquei. Céu de brigadeiro. Sem neve no natal, mas parece que raramente neva por aqui nestas épocas. Teremos que esperar a parte quarta da viagem para rever o fenômeno. A viagem, a grosso modo, está dividida em quatro blocos: tempo de advento nos mercados de natal, o mediterrâneo ensolarado, a europa pop e revendo bons amigos no inverno congelante. Estamos no meio da parte dois. Impressiona a quantidade de imigrantes em Roma. Impossível não voltar a este tema. A região do Termini é uma piccola africa. Também se encontra muitos árabes e hindus. Uma grande parte tentando vender aparelhos luminosos ou bichos de pelúcia que ninguém compra nas turísticas piazzas. Chegam a ser inadequados. Roma é uma máquina de turismo. Fila para ver a boca della veritá. Um horror completo. Hordas de orientais, seriam chineses? Por isso cada vez mais me convenço que ou se vai a estes lugares aclamados pela indústria da viagem às sete da manhã, quando tá vazio, ou se opta pelos segredos, como a estupenda estátua de teresa de ávila de bernini em pleno gozo ao ser flechada por um anjo. Bem, estamos atravessando os apeninos com o trem, e a paisagem merece atenção. Hoje temos a tão publicizada ceia de dia vinte e cinco na casa dos amigos italianos. Imagino um vasto banquete gourmand. No próximo capítulo revelo o cardápio, que vem sendo preparado há uma semana. 

OS ENCANTOS E HORRORES DE UMA ROMA MEZZO-AFRICANIZADA

Roma, por um erro de cálculo, na tentativa de se ser filantrópico, acabou se reduzindo a um dia e meio. Mais uma vez, quem cede se fode. Depois de ter passado por Veneza, Firenze e agora Roma, mais os lamentos dos peruginos, pode-se se ter uma idéia concreta da Itália nesta segunda década do século XXI. Horrores de imigrantes. Hordas. Que atacam os turistas, pelo menos nestas três cidades que visitamos. Os italianos já viram que ideais cristãos não vão bem com economias em crise. O estado não aguenta amparar tantos asilados políticos assim. Na frente de grandes chiesas romanas, vários stranieri sentados curtindo o dolce far niente. Com uma taxa de desemprego altíssima, os italianos esperneiam e não conseguem sair do lugar. Dum lugar de complacência com os políticos que elegeram, dum lugar de subordinação econômica dentro do bloco a que pertencem. Abrem as portas para os irmãos na dor, e não sabem como fazer para dar pão e água pra toda essa gente. O turismo é uma fonte de renda importante presse país. Isso conta pouco pra eles, são muito pouco simpáticos com os turistas. Porque sabem que continuarão vindo. Pra admirar algumas belezas como o Coliseu e a Fontana de Trevi, por exemplo. O primeiro foi um pedido da Dóris. O segundo, da Leila. Roma é uma cidade suja. Imunda. As ruelas intermediárias, apesar de tudo isso, são encantadoras. Uma rua importante como a via Barberini ainda tem paralelepípedos! Pegamos um hotel numa região podre, do lado da Termini. Vantagem por não ter que cruzar uma Firenze, por exemplo, chegando na Novella com a testa gotejando. Saímos pra aproveitar o um dia and a half que nos restou. Além do coliseu, visitamos de sobra o palatino. Outro senão neste país da bota é que uma boa parte do tesouro artístico está em...restauro! Em alguns lugares eles avisam. Em outros, não. Dali fomos atrás de um lugar para comer, porque membros do grupo estavam com fome. Achamos um lugar meio enganoso na entrada do Trastevere, porque membros do grupo não queriam procurar a trattoria que o velho tinha selecionado. Uma das atrações mais encantadoras de Roma são as fontes. Passamos pela das tartarugas, um presente meu pra Leila, que as coleciona. Passamos pela Barberini, e, como já disse, a di Trevi. Isto seria um passeio interessante, de fontana em fontana. E daí voltamos pro hotel. Doloroso ter que passar a noite no hotel, mas somos um grupo, e todos precisam ceder em algum momento. Engraçado que algumas pessoas elogiam o meu italiano, e outras imploram pra que eu fale inglês. Já outras mandam eu falar mais baixo nos museus, quando vou explicando os quadros. Provavelmente indícios de uma surdez meio precoce, porque eu realmente tenho dificuldade de ouvir algumas pessoas. Em Firenze ainda, vimos muita coisa no dia de ontem. As deslumbrantes portas do batistério, as de Pisani e as de Ghiberti.  Os afrescos de giotto na santa croce. A monumental capela Brancacci na santa maria del carmine. O bargello com o davi de donatello, a primeira estátua nua depois do período casto da arte medieval. O baco de giambologna e o davi de verrocchio. A escultura também precisa ter a sua vez. Florença é encantadora. Tão rica em arte e jamais presunçosa. O bairro do lado de lá do Arno nos agradou em cheio, next time tentaremos ficar por lá. E mais dias, também. A Itália possui setenta por cento do patrimônio cultural da humanidade, é um lugar que merece tempo e tranquilidade. Uma boa sorvida de chianti, enquanto nos deleitamos com os ciprestes da toscana, ou o casario de alguma vila medieval perdida no tempo. Quanta diferença de Roma! Roma tem uma monumentalidade irritante. Amparada no tripé Império romano + igreja católica + fascismo, o exagero domina vários pontos da cidade. A missão é encontrar detalhes, pequenas surpresas que se transformam em histórias para serem contadas. Esta será a missão de amanhã.

UM TURBILHÃO DE PENSAMENTOS ENQUANTO GIOTTO BRILHA

Existem várias situações que nos definem se já estamos velhos ou se ainda somos jovens. Se temos planos, vontades, desejos a realizar, somos jovens. Logo, sou jovem, porque quero desbravar ainda meio mundo, e voltar pros mesmos lugares para ver o que não vi, ou rever o já visto com outros olhos. Voltar a saborear um apfelsaft, a passar a mão em Nepomuk na Karluv Most, entrar novamente na Madonna dell’orto em Veneza e admirar o que não foi possível ver. Hoje vi um senhor dos seus talvez setenta anos, cabelo bem branco, mochila nas costas, e falei pra Helena que daqui a muitos anos eu vou estar assim. Não é animador?Uma brincadeira que gostamos de fazer é escolher quem poderia estar viajando junto com a gente. Em primeiro lugar, of córsi, a mamãe-babá. A Punda Maria. Apelidos não lhe faltam. Presença constante nas nossas andanças, desta vez com a correria acabamos ligando pra ela na véspera pra anunciar. Ela não podia ficar sem saber. Depois a Gerda. Sempre um pé que um leque pra ir junto, mas os obstáculos de toda a ordem a impedem de fazer o que tanto gosta: viajar. De tão animada ela até sugeriu um roteiro pra nós! Tem a minha querida tia Marise, que já provou do mel e está disposta a uma nova aventura além-mar. Tem o JG, que por mim convidado foi pra vir da próxima vez. Em suma, precisa-se de alguém que: domine algum idioma estrangeiro, tenha a iniciativa de perguntar a estranhos, tenha senso geográfico, seja econômico, não atrase o grupo ao ver lojinhas, consiga acompanhar o ritmo intenso da excursão privé. Tem que gostar de arte, suportar distâncias para se ver algo exclusivo e aceitar dormir em espeluncas sem muito conforto, nem luzinhas de cabeceira. Hahaha!Florença. Muito cuidado ao misturar visitas a amigos com visitas culturais. Uma coisa acaba prejudicando a outra. Ganharemos uma almoço de natal, perderemos um dia em Florença e outro em Roma. E o saber improvisar faz parte também. Jogo de cintura e pensamento rápido. Assim, cá estamos no cuore da Toscana. A paisagem do entorno é supimpa, com direito a neblinas e ciprestes. Nesta primeira tarde, zarpamos pro Uffizi. A Renascença italiana primeva ao alcance do olhar. A passagem do gótico e do bizantino ao racionalismo equilibrado de um Giotto, de um Uccello, de um Botticelli. E também de vários outros. Pra Dóris, uma tortura. Ela avança de banco em banco. Meno male que pra jovens é free. (Puxou a tia que ficava desembaraçando as pontas na frente de um magistral Tintoretto). Os primeiros são os melhores. Duccio, Martini, Giotto são os que fizeram a revolução. Os outros receberam de mão beijada. Um museu imenso, que acaba privilegiando as primeiras salas. No final, quase passam despercebidos os rossos fiorentinos, os pontormos e os coreggios.Se Veneza é uma puta no bom sentido, Florença é uma velha senhora distinta. A cidade é séria e preserva uma riqueza artística absurda, que lançou a arte ocidental, seus princípios mais caros. O Duomo é de uma beleza sufocante. Bem mais contido que a basílica de San marco em veneza, ele é monumental e econômico, nas formas e nas cores. Fazendo parzinho com o batisterio e com o campanile, o conjunto só vem a provar a idéia de que florença conquista pela coerência. Andamos bastante da estação até o nosso hotel, mas assim se economiza no transporte. E se conhece a cidade. Estamos numa zona residencial e tranquila, longe do bas-fond em torno da novella (o que é comum aqui na itália). Comemos sorvete, azeitonas da puglia e iogurte de vitipeno (ou seria vipiteno, nunca sei). As atrações de florença se concentram num raio pequeno. Quando vim com Tita, Oma e Laura, paramos na via cavour. Disso me lembro. Tita fumando feito uma louca e eu chantageando a coitadinha que só pagaria uma mineral se ela visitasse o museu A ou a igreja B comigo. Hahaha, o monstro.Tô cansado. Preciso dormir. Nunca imagino que possa ficar doente numa viagem. Mais uma coisa de gente jovem e irresponsável. Sim , óbvio que fizemos seguro. E até tava bem congestionado no último dia de veneza. Mas pra isso que a gente traz cebion. É bom ser jovem. Aproveitemos o momentum. Carpe Diem, como diriam os romanos. Nossa próxima vítima. Enquanto isso deito pro lado e sonho com os dourados dos proto-renascentistas que quase chega a queimar os nosso olhos. De êxtase.

Thursday, December 19, 2013

VENEZA, A GRANDE PUTA, TRANSPIRA ARTE PELOS SEUS POROS


Definitivamente, Bellini. O Giovanni. Se Viena é Klimt, Veneza é este grande mestre da Renascença. Consegui vê-lo num São Jerônimo, na Miracoli, no altar de Pesaro na I Frari, e agora uma sala quase completa dele na galleria. A Pietá dele dá de dez a zero na do Ticiano, que me perdoem os barrocos de plantão. O contraste entre a paisagem indiferente ao sofrimento de Maria e os rostos carregados de dor é sublime. A distribuição das figuras enfatiza ainda mais a falta de compreensão da breve existência humana. Maria não entende porque o seu filho foi sacrificado, assim como nós não entendemos muita coisa a respeito da vida. E da morte. Além do conteúdo, o prazer estético da imagem impressiona. A economia das cores do manto de Maria sugere o luto e o recolhimento. Se o próprio Dürer, que mereceu minha peregrinação ao Albertina em Viena reconhece a maestria e a influência de Bellini, quoi dire dos reles mortais? Além dele, pra não parecer que só existe Bellini em Veneza, vimos Tintorettos, Tiepolos, Veroneses. Nevertheless, nada impressiona e atiça os meus sentidos mais do que Bellini.

Aos poucos, vou percebendo o que me interessa ao visitar um lugar. A arte. Claro. Principalmente a pintura. Escultura é chato porque não tem cor. Yes, sou um fauvista declarado, e a cor me interessa mais do que a linha precisa. Quando as duas se combinam, perfeito, tal qual em Bellini. Luz e sombra é interessante, mas não chega a me fascinar. Caravaggio é apenas interessant. Depois vem a comida. Uma boa parte das minhas fotos, e narrativas, envolvem a comida. Culpa da Gerda. E talvez da Mina, who knows. Hoje, zum Beispiel, me deliciei simplesmente com um sorvete de pompelmo! Aí vem a fotografia. Capturar os momentos e os detalhes. Em algum destes tantos museus, me dei por conta que o Opa gostava muito do romantismo. De paisagens isoladas e melancólicas, sem a presença de seres humanos. Algo entre Caspar Friedrich e os Biedermeier de gosto duvidoso. Acho que sou meio assim também...Prefiro as fotos sem pessoas. De prédios. De detalhes. Afrescos inusitados numa casa quase imperceptível nas ruelas de Veneza. Além da comida, a bebida. As cervejas. Sim, vor allem, as cervejas. Vinho não me interessa muito. Quase nada. Exceto os carmeneres chilenos. Então me esbaldo comprando garrafas de birra a oitenta cents de euro. E por último, o teatro. Mas nesta excursão, fica difícil porque o grupo depende muito de mim pra chegar no hotel e acaba que perco o horário. Adaptações necessárias.

Veneza tem uma água verde e fétida, mas é única. O labirinto geográfico é um jogo de memória e coragem. Ruelas que vão dar na água. Ou becos sem saída. Pátios com fontes vertendo água. Potável, segundo o locador deste apartamento. Turistas demais. Veneza é na verdade uma grande puta. Sempre carregou a fama de ser pra lá de liberada, não aceitando nem a intromissão de Roma em seus afazeres. No entanto, as hordas de orientais e a gente que se vê pelas calles não sugerem nada disso. Desfigurada pelo turismo, ela ainda se mantém no seu entorno, quanto mais longe da Piazza, melhor. É uma cidade que detesta a velocidade, que privilegia os cantos escuros, e o aperol. Ou quem sabe um campari. Bacaros escondidos à espera de gente descolada e sem preocupações. Muita gente elegante. Porque sabem que hospedam um festival de cinema e mais uma bienal. Arte é a palavra-chave. O orgulho de uma independência, feito os vienenses com o seu império. Como estes europeus gostam de se agarrar nas glórias passadas! Mesmo assim, é um lugar que merece uma estada descompromissada. De chiesa em chiesa. Explorando os recantos secretos. A dois. Um lugar que inspira o desejo.

No final das contas, ao percebermos os declives do piso da basílica de san marco, fiquei feliz de ter podido mostrar este lugar especial para as três moçoilas antes que ele afunde. E que não afunde nunca, porque io voglio ritornare.

Wednesday, December 18, 2013

VENEZA É SÓ PRA QUEM TEM CORAÇÃO FORTE

Estamos em Veneza. Como a internet aqui do apartamento é bem meia boca, vou condensar a viagem até aqui com nosso primeiro dia completo na "Sereníssima". Veneza, em resumo, são duas. E eu prefiro bem mais a segunda. Tem a Veneza vendida pros turistas, cujo comércio já está severamente nas mãos dos chineses, e a vera Veneza, longe do burburinho das ruelas entre a ponte Rialto e a praça San Marco, que fica quase escura à noite e que dá uma sensação de tranquilidade, calmaria e de que o mundo sim ainda pode se livrar dessa praga que é o consumismo desenfreado e imbecil. Tendo dito isto, a viagem de Viena a Veneza cansou. No afã de mostrar o máximo possível dos ícones europeus, optei por rasgar o continente feito algumas adolescentes que vão fazer cursinhos de inglês na Inglaterra e depois disso aproveitam para conhecer todos os recantos deste mini-continente, quando comparado com vastas dimensões americanas. Hahaha! Eu sei que é meio loucura, e até eu já era um crítico atroz destas viagens, mas todo mundo tem direito a levar suas filhas para conhecer o natal europeu, ou então se gabar de que cruzou a Europa de norte a sul, da sicília até a noruega. Hahaha! (É a cerveja italiana que me deixou assim, ferino.) O que importa é que as três estão adorando a experiência. Então dentro desta idéia, cruzamos os alpes para chegar em veneza. Paisagens lindíssimas, com não muita neve. Eu só gargalhava parando nas estações de Kufstein, Bozen, Verona, Padova sem poder descer e visitar o que merece ser visitado. Chegamos beeeeem tarde em Veneza. Eu, enlouquecido com o cenário e com o momentum, fui me adentrando com mala e tudo achando que o hotel ficava num lugar e de repente nos demos conta que a rua não existia. Dez e meia da noite, os restaurantes fechando, nós sem celular que funcionasse (e viva esta merda de tecnologia!) e três olhares apavorados pedindo uma solução para o adestrador de ursos. A primeira alma caridosa, quem sabe o próprio São Marcos, nos ajuda procurando o endereço num celular e indicando a direção. Procuramos e não encontramos nada. Estávamos desesperados sem saber o que fazer. Eu dizendo que tudo bem, a gente dormiria numa das pontes, eu já tinha a experiência de dormir em parques europeus. Aí eu entro numa pizzaria, numa rua que tinha o nome do hotel, e o dono me diz que o dono do hotel - que na verdade é um apartamento incrível, com 2 quartos, cozinha completa, máquina de lavar, água quentinha a poucos metros da praça de San Marco - tinha ligado pra ele pra saber se tinham estado brasileiros por ali à procura dele!!! Por obra do destino, o dono da pizzaria liga pro dono do apartamento e quase meia-noite, entramos onde estamos agora. Depois da agonia, fica a história pra contar. Se alguém achar que tem a solução pro problema do tipo "mas por que que ele não...", já está convidad(a)o para the next trip. O adestrador de ursos não consegue dar conta de tudo. He is human and he fails.

Recuperados da fadiga, perambulamos pela cidade dos canais e das pontes. Entrei por la prima volta no universo de mosaicos da Basílica de San Marco. Oh-my-goodness! Pra quem gosta de mosaicos, um prato cheio. No chão, nas paredes, nas cúpulas, em todo lugar. Infelizmente, fotos são proibidas, o que irrita por demais os turistas que buscam registrar aquilo que os fascina. Não dá pra sair abrindo o bolso pra tanto cartão-postal, i'm sorry. Uma raiva que a gente tem que engolir. Dali, fizemos um percurso de chiesas fora do circuito que mereciam uma visita. Já escolhi o ubermensch da escola veneziana: Bellini. Se Dürer diz que Bellini é o cara, o que sobra pra mim? Vimos o museu dos ícones, pequeno mas que dá uma boa noção da rivalidade entre veneza e constantinopla e como a arte bizantina entrou no continente europeu via veneza. Na basilica de san marco já dá pra se ter uma boa idéia disto. Além das igrejas - que são lugares nos quais se tem tintorettos, tizianos e veroneses de graça (ou quase) - o que importa aqui são os ângulos inusitados entre canais, prédios descascando e gôndolas passando. Repletas de chineses, diga-se de passagem. Qui ont l'argent. Pausa pro almoço, de sobremesa meu encontro com o primeiro canoli, hummmm! À noitinha, mais uma saída, desta vez pros becos escuros do canareggio. a veneza com cara de subúrbio, de seres humanos que trabalham pra sobreviver e que voltam pra casa depois do seu turno.

Nosso apartamento como disse é bem situado, mas só saber que se está no coração do arquipélago é uma sensação de conquista e de prazer. E quanto piacere!

A VIENA QUE NÓS TANTO AMAMOS

O Segundo dia de Viena foi mais light, porque não se tinha a obrigação de horário. Mas ao nos despreocuparmos, acabamos sempre saindo tarde. E o dia fica curto. Ainda mais no inverno quando lá pelas quatro já anoitece. Viajar no inverno é bom quando não se tem uma agenda para se cumprir. Quando caminhar não faz parte das atividades programadas. O atraso se deveu à possibilidade de lavar roupa no tal hostel do lado do palácio. Obrigações de viajeiro. Viena tem muito imigrante. As faxineiras do albergue eram russas (talvez búlgaras?) que mal e mal dominavam o alemão. E precisavam nos explicar como funcionava a máquina de lavar roupa! Então depois de um café da manhã muito acima da media corremos para não perder as figurinhas do ankeruhr. Curioso como cada cidade se apega em um periodo histórico, ou mais de um, para se promover. Viena é a cidade imperial. Do fausto de uma Maria Theresia, das extravagâncias de uma Sissi. Depois tem os pintores-chave. Desde um Kokoschka, até o celebradíssimo Klimt - e olha, o Beijo dele estonteia a alma mais vibrante. Precisei de alguns minutos pra me recuperar. Isso que eu já sou pós-doc em Klimt, depois de tê-lo absorvido na minha montagem das Três Irmãs, mas mesmo assim, o contato real com a pintura é impactante. São estes momentos que reforçam o esforço de cruzar meio globo e sacolejar num trem pra cima e pra baixo. No ankeruhr, se tem desde os romanos fundadores de vindobona até os imperadores e condes que defenderam viena dos turcos e alçaram a cidade à capital dum grande império. De tarde, garfamos o schloss belvedere, das obere teil. Estranho que a memória falha com a idade. Não me lembro onde fiquei em Viena quando viajei sozinho e nem a razão de não ter entrado em nenhuma galeria do belvedere. Nada como o tempo. Desta vez, fui presenteado com belos Waldmüller, os desestabilizantes Klimt, um divertido Gerstner e a grande surpresa chamada Neder. Dali, fomos pro Haus der Musik, um museu bem recente que fala dos grandes compositores - uma aula sobre a tríade sagrada: Haydn/Mozart/Beethoven - com direito a experiências acústicas creepy. O centro de Viena decorado para o Natal, bolas coloridas, luzes que descem em cascatas, e os mercados de natal em tudo que é lugar. É o seguinte: Viena é definitivamente O lugar pra se viver. Bondes impecáveis e pontuais. Atrações culturais em abundância. Igrejas escondidas completamente vazias. Enquanto os turistas robotizados se apertavam na Stephansdom, nós estávamos sozinhos na Jesuitenkirche, uma pérola barroca ainda desconhecida da plebe rude das excursões bastantonas. Vou descobrindo que este é na verdade o grande prazer. Um museu secreto, uma rua fora do circuito elizabeth arden, uma igreja que não cabe nos roteiros dos japoneses, uma stube em hernals. Ah, Viena, penso em ti de forma cada vez mais gulosa. Eita cidade que contamina os afetos e as volições mais intensas!

VIENA É TUDO DE BOM

Viena é a cidade em que eu não vivi. Talvez por isso é que eu me sinta tão em casa por aqui. Quando a mulher da fulbright me liga dizendo que eu tinha que optar entre os estados unidos garantidos e uma viena ainda pendente, achei melhor um pássaro na mão. Achei que o inglês seria mais útil na vida das gurias, e que boulder garantiria trilhas no verão e esqui no inverno. E que uma cidade de 90 mil habitantes seria mais fácil pra elas se adaptarem. Eu só me esqueci que a minha cauda de dragão está em áries, e que eu encarnei para aprender exatamente o que esta posição exige. Viena, então, me pertence de forma obtusa. Tive aqui todas as vezes em que perambulei pelo velho continente. E a sensação de que este é um meu lugar não passa. O nosso hotel fica do lado do palácio Wilhelminenberg. Um desbunde. Achei que estava no endereço errado, torcendo que fosse o certo, porque já era noite. A vista da cidade é qualquer coisa. Do topo dos bosques de Viena, é onde estamos, mais exatamente. Acabei contaminando o grupo e agora as gurias também querem morar aqui. Eu disse que tenho três opções de emprego à lá pai de Sabrina: professor do Berlitz, motorista da embaixada ou qualquer coisa da onu. Hahaha. Com um saco de avelãs do meu lado, conto estas peripécias pela capital dos austríacos. Como bastião do mundo capitalista se adentrando na cortina de ferro, a cidade tem um status diferenciado. E é colorida por uma penca de imigrantes. Se já era o centro nervoso de um império multicultural, continua sua tarefa de receber gente de todas as partes do mundo. E tudo funciona bem: os bondes, as filas de supermercado, a simpatia generalizada. Sim, somos herdeiros de Maria Theresia, nosso sangue é azul, e nós estamos felizes que vocês tenham escolhido a nossa bela viena para visitar, parecem estar dizendo o tempo inteiro. A agenda artística é deprimente, pra quem sabe que vai ter que partir em dois dias. Ainda mais nessa época de advento, os mercados de natal e os concertos de trompete e de violino acontecem num ritmo frenético. Duas óperas. Um dos teatros mais respeitados da cena de língua alemã. Inúmeras salas de concertos e galerias de arte. Ah, meu Deus, as exposições! Nós conseguimos abocanhar uma de Lucian Freud e outra de Matisse e seus pupilos, mas ficou faltando uma outra de Emil Nolde, e outra de Kokoschka, e outra de...E o vienense vai ao museu. Vai ao teatro. Admira e valoriza a arte. Me furto a fazer comparações. Já tô de saco cheio disso. Acho que a febre já tá alta. O asco de uma cultura anti-intelectual, que se orgulha de achincalhar com a tradição, com uma herança basilar da civilização ocidental, preferindo num ato escancaradamente ideológico, preterir esta cultura de que falo em prol de apropriações do popular. Neste pequeno exílio temporário, enchemos as nossas caçambas com Dürer, Rafael, Arcimboldo, Rembrandt e Brueghel. Isto sem falar nas cores exuberantes dos fauves - Matisse pra lá de metro. Neste meio tempo, kaesespaetzle, spezi, krapfen e...e...wiener schnitzel!!! O gordo não podia deixar de proporcionar este genuss para as filhas e pra mulher, é óbvio. Passeios de bonde, e uma volta muito especial num vagão que sobe. O Riesenrad do Prater. Nem medo a Leila sentiu. The evolution. Weihnachtsmarkt no Prater, Weihnachtsmarkt na Rathaus. E pra fechar o períod de advent com chave de ouro, os meninos cantores de Viena na Hofburgkapelle. É mole? Ou vocês achavam que o velho gordo ia perder o pique e mudra sua concepção? Continua a mesma aeróbica cultural de sempre. As torturas com Filliot em Koeln e com a Tita em Florença se repetem. Pra que comer, isso é falta de tempo! Hahahaha. Toda viagem em grupo é uma adaptação. Helena e Dóris estão aprendendo isto. Vontades e velocidades diferentes. Precisa-se de um equilíbrio. A tão proclamada arête da Graça. Não é fácil. Mas estar em Viena ajuda e amacia. Viena é um lugar bem possível pra se viver. Bem possível.