Wednesday, December 7, 2011

NADA MAIS QUE TEATRO - O NAUFRÁGIO DA LOUCA ESPERANÇA

Uma crítica sobre a mais recente encenação do Théâtre du Soleil, sob a direção de Ariane Mnouchkine, intitulada na tradução para o português O Naufrágio da Louca Esperança, pode facilmente resvalar para um lamento da geração que acreditava que o mundo poderia ser um lugar mais justo e igualitário quando escrita por alguém que compartiha das idéias marxistas e libertárias da diretora deste invejável e duradouro ensemble francês. Entretanto, o que parece um canto do cisne a nível pessoal, extrapola a melancolia das ideologias aparentemente soterradas pela hegemonia neo-liberal para resgatar uma tradição de teatro que vem desde Visconti e Strehler e perpassa Vilar e Planchon na própria França. Parafraseando Stein, teatro é teatro é teatro é teatro. Desta forma, para a turma dos híbridos, fragmentados e parataxistas, O Naufrágio da Louca Esperança revela uma estética contrária, que resgata elementos teatrais por excelência, mantendo a esperança aos neo-hereges do hegemônico universo pós-dramático.
Em primeiro lugar, a encenação recupera a teatralidade do teatro. teatro não é a realidade, é ficção, e teatro não é um ritual, é uma arte com artistas e espectadores. Teatro é sobretudo uma arte do artifício, do engano, da ilusão. Estes elementos estavam todos presentes no galpão montado especialmente para a ocasião. Mesmo que aceitemos que o teatro representa o real, ele jamais será o real, e isto já foi suficientemente percebido pela escola naturalista. Mesmo que concordemos que o teatro necessita de uma aura de celebração, existe uma distinção clara entre aquele que faz e aquele que vê - nunca esqueçamos que a etmologia da própria palavra designa o espaço físico no qual sentava o público do teatro grego. Esta teatralidade recuperada nos faz passar para o próximo resgate que vem a ser a especificidade da arte teatral.
Em tempos de interdisciplinaridade festejada, os mais novos sucumbem. As áreas do saber que se encontram em desvantagem, por razões mercadológicas ou de reconhecimento sócio-cultural, ainda nem conseguiram se firmar e já são engolfadas por apetites de animais grandes. Mnouchkine, através de uma dupla metáfora, defende a especificidade do teatro, contra aquele seu maior inimigo ao longo de todo o século XX, o cinema. Inimigo sempre que o teatro tentava se firmar naquilo que o cinema tão bem faz: recriar o real. Esta dicotomia aparece num texto em que apenas o teatro poderia retratar o quão ridícula é qualquer tentativa de se recriar o real. Assim, não mais um teatro-dentro-do-teatro, mas um cinema-dentro-do-teatro para enfatizar a beleza do melodrama, em interpretações exageradas e puramente...teatrais. Corpos dilatados, aperitivos grotescos meyerholdianos, nos quais a ausência da voz exacerbava ainda mais a importância da palavra.
O terceiro resgate é o da palavra enquanto elemento teatral comunicativo, semiótico e também, poético. O lugar de destaque da palavra escrita em letreiros ornados, num nível acima dos demais elementos da encenação fazia uma homenagem à importância do discurso verbal na cena, tão vilipendiado pelas correntes artaudianas. E não só este texto escrito, mas o texto falado dos atores: a palavra informando da chegada iminente da guerra, ironizando a natureza humana e encharcando o imaginário idealista de loucas esperanças. Ao espetacular restavam cenários mal-encaixados, fanfarras efusivas na boca-de-cena e patéticos vilões malvados se demolindo a golpes de machados. O uso da palavra nos leva finalmente ao último resgate.
Mnouchkine restabelece o caráter político do teatro na mais pura tradição brechtiana. A historicização, o metateatro, atores fazendo mais de uma personagem, o uso de letreiros para visualizar o texto do cinema mudo e por último, as placas anunciando os títulos das tomadas. Não bastasse o tema, a forma apropriada pelo Théâtre du Soleil privilegia os princípios formais do teatro épico. Como ápice desta escolha estética, Lemaître na esquerda baixa conduzindo a sua orquestra aos olhos do público e revelando a artificialidade da arte teatral, voltando assim ao primeiro dos resgates efetuados pela encenação.
Quase quatro ousadas horas de duração num andamento tipicamente europeu mas que resultaram numa experiência estético-ideológica inesquecível. Uma lufada de entusiasmo, temático e formal para aqueles que insistentemente seguem o barco em cuja vela se lê em letras garrafais TEATRO.

Thursday, December 9, 2010

BOAS MEMÓRIAS DO TEATRO GAÚCHO VI

Daniel Colin parece ser a nova sensação do teatro gaúcho. Nova? Nem tanto. Desde que atuava nos espetáculos do Depósito de Teatro, ele já dizia a que veio, e a partir de Gordos, ou Somewhere Beyond the Sea, de Nicky Silver, projeto dele de graduação em interpretação no DAD, o cara estourou pra celebridade. Naquele espetáculo, Daniel atuava e dirigia. O visual era impecavelmente minimalista, se limitando às cores verde e branca. A marcação era também calculada e geométrica, apesar da característica intencidade (!?) e vigor das performances. Principalmente da de Daniel. Agora, com o seu grupo teatral, o Sarcáustico, uma regularidade de produção saudável vem se repetindo, com peças como IntenCIDADE, Jogo da Memória, A Vida Sexual dos Macacos e recentemente, Wonderland. Todo mundo cansado de saber que por eu estar no exílio, perdi estes últimos. Mas isso não importa e não prejudica o que eu tenho a dizer desse ator que é um misto de Grotowski, Schechner e Macunaíma. Daniel é glorioso em cena. Se alguém se interessa por teatro físico (um termo imbecil por ser redundante), qualquer atuação de Daniel satisfaz, enchendo os olhos e a alma. Em Dr. QS, Quriosas Qomédias, dirigido pelo Roberto, um dos sacerdotes do teatro gaúcho (calma, vai chegar a vez dele aqui no blog), Daniel estava em todos os lugares do espaço cênico ao mesmo tempo. Tomado pelo espírito mercurial de Puck, ele rolava, escalava, gargalhava, suava e escorria. Com uma physique pra lá de felliniana, o que qualquer performer gostaria de ter, suas múltiplas personagens faziam misérias, sempre com um sorriso sarcástico (ops!) de lambuja. Entretanto, pra mim, Daniel vai estar sempre povoando as minhas boas lembranças como a dobradinha Clive/Cathy no já canônico texto de Caryl Churchill Cloud Nine, Muito Prazer...que eu dirigi em 2004. Antes de começar a babar mais um pouco, faço questão de revelar que ele tem uma ética fora do comum. Mesmo discordando de quase todas as minhas decisões em relação ao texto e a performance, Daniel respeitava e entendia o meu processo de criação. A prova disso era que em nenhum momento eu percebia qualquer dissonância entre a minha estética e o trabalho de ator dele. Quanto às criações de personagem na peça, puta que o pariu, estas sim merecem a posteridade. Clive era o senhor colonial britânico enrijecido, militarizado e eretômano. Cathy era uma menina londrina espoleta, inconsequente e imunda. Pular duma personagem pra outra, com tamanha habilidade, não é pra qualquer um. Em tempos de lástimas por ausências de nomes nas indicações dos prêmios para teatro em Porto Alegre, fica o registro do criminoso desprezo com um trabalho de criação duplo e inebriante. O Clive dele era bárbaro, mas Daniel - que me confessou que adorava fazer Cathy - num vestidinho verde e roxo, cruzando o palco com uma arminha de plástico, ou choramingando porque um outro menino roubou o sorvete dele são cenas que pra quem perdeu, uma lástima. Brinco com ele que por ter sido indicado não-sei-quantas-vezes-já-perdi-as-contas pros tais prêmios Açorianos e Tibicuera da Prefeitura de Porto Alegre, ele é a Sally Field gaúcha. Daniel, porém, prefere ser considerado a Katharine Hepburn dos pampas. Muito justo, pra esse santista exilado que só tem a contribuir pro enriquecimento e engrandecimento do teatro brasileiro.

Monday, December 6, 2010

BOAS MEMÓRIAS DO TEATRO GAÚCHO V

Da mesma forma que Sandra Possani, Heinz Limaverde possui uma habilidade ímpar de conectar o público sugando a nossa atenção. Heinz, porém, possui uma qualidade só dele que vem a ser um sorriso maroto e perverso ao mesmo tempo, que vai nos conduzindo até onde ele bem entender, nos tornando cúmplices dos desvarios das suas personagens. De todas elas. De tudo o que eu vi dele até hoje, o que mais me marcou foi o Bottom, no Sonho de Shakespeare dirigido pela Patrícia. Ali, Heinz estava simplesmente...eterno. A aparente arrogância do tecelão, que acredita ser melhor ator do que todos, contrasta com o torpor resultante da transformação encefálica - incluindo aqui o prolongamento de maxilar e orelhas - e o conseqüente desejo carnal de Titânia por aquele tosco mecânico. Tudo isso Heinz desenhava com exuberância, através de variações vocais e corporais. Se por vezes ele pisoteava o picadeiro-chão de cabaré platense com força, em outras, ele se apoderava do pseudo-balcão elizabetano, deslizando por sobre e sob uma inebriada rainha das fadas. O que via de regra impressiona num ator é o inesperado. Sempre pré-julgando as coisas, ficamos maravilhados quando, por exemplo, Heinz pulula pelo palco parecendo uma pluma caindo em zigue-zague, ou então, quando ele quase cai pra fora da cena numa desatenção comovente. Lembro dele fazendo um Chicó sem igual, qualquer coisa entre a melancolia e a fuzarca, no Auto da Compadecida do Roberto, mas vai ser sempre o Bottom dele (que tinha uma tradução em português pro nome da personagem nesta montagem que seria...?) que eu vou guardar na memória, com a dose exata de candura e espanto, numa atuação que mais parecia um baile, uma contação, ou qualquer coisa dessas que nos deixe de boca aberta comendo mosca por cinco horas, se for preciso.

Saturday, December 4, 2010

BOAS MEMÓRIAS DO TEATRO GAÚCHO IV

Não me lembro mais quantos espetáculos com ela eu já assisti, mas se o nome dela aparece no programa, o público tem razão de sobra pra sair do teatro e ir pra casa com um gostinho de quero mais. Sandra Possani é uma das grandes damas do teatro de Porto Alegre. Co-fundadora do depósito de teatro, o nome dela é consenso geral, aparecendo volta e meia em alguma lista de indicações a melhor atriz disso ou daquilo. E mesmo que ela fosse negligenciada pelos jurados de prêmios, jã não bastando o empenho na busca e realização de um teatro engajado com as questões mais pertinentes e com os textos mais vigorosos da dramaturgia brasileira, a presença cênica dessa incansável artista seria o suficiente pro engrandecimento do teatro enquanto arte. Num texto em específico, um dos pilares do nosso drama nacional, Sandra deu um baile de interpretação, num papel com uma longa história por detrás, num espaço não-convencional que tinha tudo para abafar a voz dos atores e atrizes e contracenando com outro mito do teatro gaúcho, Nelson Diniz. Era O Pagador de Promessas na escadaria da Igreja das Dores, no centro de Porto Alegre, entregue às intempéries da natureza e da metrópole. Resgatando o espaço público como um bem coletivo e o teatro ao ar livre como uma forma mais democrática, o espetáculo despertava a consciência crítica do público principalmente através do lirismo das interpretações do casal protagonista. A leitura da personagem de Rosa feita por Sandra tinha um poder incantatório. Oscilando entre a ilusão da cena, quando usava a miséria e a dor da situação, e o comentário em apartes, quando o olhar fulminante atravessava a omissão e o descaso acumulados dos espectadores em situações semelhantes do dia-a-dia, Sandra roubava a cena. Exigindo o comprometimento e escancarando a verdade, a fala pausada mas carregada da personagem conseguia maravilhar e despertar, algo que Brecht pedia na teoria como a função primeira da arte do teatro: conscientizar através do prazer estético da cena. Ela conseguia ser um alguém muito íntimo e próximo e ao mesmo tempo uma crítica feroz do status quo. Eu poderia citar muitos outros momentos marcantes da carreira dessa atriz, como a virgem no Auto da Compadecida ou então as várias personagens no veloz e antropofágico Dr. QS - Quriozas Qomédias, mas o olhar retorcido e suplicante da Rosa de Sandra já tá mais do que bom pra resumir o fascínio que essa mulher provoca quando encarna um outro alguém bem na nossa frente.

BOAS MEMÓRIAS DO TEATRO GAÚCHO III

O terceiro do meu rol saudosista não fez parte do meu elenco das Três Irmãs (informação importante essa, senão algum mal-informado despencado de pára-quedas aqui nesse blogue pode achar que eu só teja querendo destacar atores que trabalharam comigo) nem nunca foi dirigido por mim. Ainda. Faz horas que eu tento fisgar o dito cujo para uma das minhas peças, nem que seja uma simples leiturinha dramática, mas ele sempre consegue escapar. A grande ironia, porém, se deu na última copa do mundo, quando eu, estando em Nova Iorque pra participar do Laboratório de Diretores de Teatro do Lincoln Center, escapo pra assistir um dos jogos do Brasil num desses redutos verde-amarelo da grande maçã e eis que numa hora crucial do jogo, um cara do meu lado me pergunta o placar e eu incomodado resmungo qualquer coisa quando de repente o cara exclama: Paulo Ricardo Berton! Viro pro lado e dou de cara com Tiago Real. Pois é. Se no palco a gente não se encontra, o umbigo do mundo dá uma de província. Da de São Pedro, Tiago Real já partiu, tendo escolhido São Paulo como lugar de trabalho. Antes disso, porém, tive a chance de ver alguns trabalhos dele, e vou me deter em dois, que, ao meu ver, fazem esbanjar o talento desse ator. O primeiro foi na montagem de Arlequim, Servidor de Dois Patrões, texto de Carlo Goldoni, pela cia. Stravaganza. Tiago fazia Sílvio, um dos innamorati, cabendo a outra metade da laranja pra outra atriz de tirar o chapéu, também exilada, Letícia Liesenfeld. Num papel bandido, já que as acrobacias e trocadilhos vão todos para as outras máscaras da Commedia dell' Arte, Tiago prendia a atenção do público, num misto de melodrama barato e heroísmo romântico, fazendo com que o espectador achasse graça da personagem um puó sonsa, um puó impetuosa, mas também torcesse pelo seu sucesso, na conquista do coração da sua amada. Mais tarde, numa prova da sua versatilidade enquanto ator, ele aparecia no teatro de arena na pele da genettiana madame de As Criadas. Não bastasse a physique ideal, pois Genet pede o grotesco distanciamento de um vigoroso corpo masculino em vaporosas vestimentas femininas, o trabalho de voz de Tiago era impecável. Irrompendo no universo de mentiras das criadas, a madame naturalmente ensina suas serviçais, através de frases lacrimosas e giros provocantes, como sobreviver num mundo regido pelo sexo oposto. Sem contar as inúmeras leituras do texto ímpar do dramaturgo-ladrão, a composição da personagem no estabelecimento de uma relação de hierarquia como reflexo da estrutura social do lado de fora da porta já bastava para provocar as idéias do público em relação a gênero, orientação sexual e classe social. Tanto na comédia oitocentista quanto no absurdo do século vinte, o que se viu, eram dois trabalhos de ator memoráveis. Mas eu ainda não perdi as esperanças. Uma hora esse guri vai trabalhar comigo.

Thursday, December 2, 2010

BOAS MEMÓRIAS DO TEATRO GAÚCHO II

Por coincidência, o próximo na minha lista dos artistas de teatro gaúchos que me trazem boas memórias também fazia parte do elenco do meu projeto de graduação no DAD. João de Ricardo naquela época era um ator, e a clássica cena do doutor-que-já-nem-sabe-mais-o-que-que-ele-é no terceiro ato, nua e crua e apenas com o auxílio de uma bacia cheia de água e um pano branco, calou a platéia. Entretanto, João é um daqueles seres elementais, um verdadeiro duende que transita por diferentes mundos e realidades. Assim, do realismo impressionista e delicado de Tchekhov ficou apenas a saudade. Ao se tornar um diretor, ele pulou pro outro lado da cerca, e a sua obra é o que se tem de mais barroco na cena porto-alegrense. Que não se entenda este pular a cerca como uma traição ou uma mutabilidade de ocasião: ele na verdade voltava para o seu território original. Lehmann, o apóstolo do teatro intitulado de pós-dramático, define o excessivo e a densidade dos signos como um dos elementos característicos desta escola estética. Quem já assistiu um trabalho do João sabe do que que eu tô falando. A filiação estética dele é um pacote polonês. A intensidade visual e física presente em Kantor e Grotowski são marcas registradas das encenações dele. Prefiro chamá-lo de barroco ao invés de pós-dramático, porque João acredita no drama. Sua trajetória artística mostra uma relação próxima do diretor com a palavra escrita, desde as montagens de Ravenhill e Beckett no DAD, até a passagem por obras de Nicky Silver e principalmente o trabalho conjunto com um dos mártires da dramaturgia gaúcha, o prolífico e pop Diones Camargo. E é exatamente uma parceria dos dois que pra mim foi um dos momentos-auge do exercício da direção teatral nos palcos da capital gaúcha. Em Andy/Edie, além de um punhado de interpretações magistrais (a trinca Scalari-Venturin-Capeletti), o estilo do diretor João de Ricardo é um dos mais intensos, interessantes e coerentes dos que eu tenho visto por aí. A visceralidade dele difere da dos mestres poloneses supracitados, porque o contexto atual não é o mesmo do pós-guerra. Captando a superficialidade e bossalidade das relações humanas, o faustiano preço do mercado de celebridades e a solidão que se esconde por trás de uma fachada de latas de sopa campbell, o espetacular espetáculo critica debordianamente a espetacularidade forçada dos tempos pós-modernos. A agilidade física dos atores, a velocidade das falas e o colorido exuberante do figurino e cenários ironiza a estética contemporânea, na qual tudo passa a parecer uma festa infantil. Esse furor cênico varre a platéia, obrigando o público a odiar ou venerar o resultado. Eu me incluo na segunda categoria. Uma pena que o experimentalismo e a plasticidade cuidadosa digna de um artesão não sejam percebidos por muitos. Este, porém, é o preço da genialidade. Van Gogh e Mozart que o digam. Me contam que os últimos trabalhos são mais sufocantes e belos ainda, mas não posso criticar aquilo que eu não vi. O que eu sei é que o que eu vi merece urros de satisfação.

Wednesday, December 1, 2010

BOAS MEMÓRIAS DO TEATRO GAÚCHO I

Marcelo Adams é o Molière do teatro gaúcho. Além de ator, ele também escreve peças e além disso produz muito, através da sua própria companhia, a do quadrado. Antes de se tornar uma celebridade teatral no meio - uma conquista muito merecida - Marcelo deu várias palhinhas pros que acompanharam os trabalhos dele ainda enquanto aluno de interpretação teatral do DAD(Departamento de Arte Dramática da UFRGS). Quando ele ainda cobrava cinquenta real de cachê, eu conseguia segurá-lo nos meus elencos. No meu projeto de Direção V (detal, eu era aluno de direção teatral no DAD na mesma época, ou seja, pertencemos à mesma geração, ele um pouco mais pra Lacan, eu pra Althusser) ele se superou em três performances magistrais: Eugene O'Neill, o próprio, na minha versão de Antes do Café; o padre em Luz nas Trevas, de Bertolt Brecht (a cena dele entrando com o carrinho repleto de playmobils faz parte da minha antologia teatral) e por fim Machut em A Gramática, do farsesco Eugène Labiche, numa acelerada e enlouquecida montagem na qual Marcelo só não escalava as paredes porque a gravidade não permite. Quando eu achava que o repertório dele já tinha se esgotado, ele topou fazer Andrei, o irmão das filhas do General Prozorov, no clássico As Três Irmãs, que eu dirigi no meu projeto de graduação. Contenção de gestos, agonia nas frases, impotência na comunicação, Marcelo Adams mostrou ser um ator completo, perfazendo assim uma escala de personagens que vai do frio gélido da Antártica ao calor tropical das florestas do Congo. As cenas dele com a Fagherazzi fazendo Natascha e o Luiggi fazendo Ferapont eram de cortar o fôlego. Depois disso, Marcelo só veio a corroborar o que eu já sabia: sua vocação natural pra arte da mimesis. Eu consegui ver um par de interpretações memoráveis, nem sempre reconhecidas pela classe, em textos como O Sofá, do de la Parra e A Escola de Mulheres, de...Molière(!). Algumas outras celebradas atuações ou não fazem parte do meu rol de preferidas, ou aconteceram no meu exílio. Por fim, não bastando o talento pro palco, Marcelo sabe escolher textos de qualidade, mostrando desta forma sua filiação estética e ideológica em relação ao teatro, entendendo o drama como elemento fundamental no processo de encenação e o teatro como uma atividade igualmente semiológica e fenomenológica.

Wednesday, April 14, 2010

SOBRE O PEDRO

O que me incomoda no Almodovar eh um emocionalismo meio barato, um interesse obsessivo pelo que ha de mais futil no universo feminino e um abuso no uso de lagrimas. O que eu gosto, e muito, eh a exploracao da estetica kitsch, o fascinio por mulheres feias e velhas e a mescla de cores. Assim, por esse equilibrio na minha interpretacao subjetiva das qualidades e defeitos do cara, ele nao ta no rol dos meus diretores favoritos. Porque se ele ta insuperavel em carne tremula e mujeres al borde, dois filmes que tem uma trama super intrincada e recheada de personagens interessantes, ele tambem faz muita merda, sobre mulheres sofrendo com a perda do amado. nao, nao da. detesto a opiniao consensual, o que nos faz desconfiar do artista. respeito a ausencia da apologia gay: as personagens sao o que sao e that's it. o pior de almodovar me remete a essa americanarada rasa que interpreta tudo a partir de um freudianismo requentado. ai um aluno me diz que a tal personagem era assim por causa da ausencia do pai! o melhor do extremadureno eh uma mistura unica entre um formalismo abusivo e uma cafonice impagavel. ah, e a musica merece elogios. ele cata baladas de uma breguice incomparavel dando o tom do que ta por vir. isso sem falar no melodioso e acido efeito da lingua espanhola. ultimamente ele tem se levado muito a serio, e em comedia, isso nao funciona. mas tambem, alguem acha que o intelectual, formalista e germanico PRB iria jogar o tapete vermelho pro Pedro?